O olhar tropicalizado de Roberto Galisai sobre o design brasileiro


Bom dia a todos,

Segue Post feito pela Mara Gama para o Blog Design do Uol

Italiano da Sardenha e apaixonado pela cultura brasileira – com olhar e paladar já tropicalizados, segundo ele mesmo- o designer e pesquisador Roberto Galisai dirige a agência do POLI.design em São Paulo e acompanha o desenvolvimento de pesquisas e projetos de inovação, geração de novas tipologias de produtos, serviços, mercados e negócios entre Brasil e Itália.

O POLI.Design é um programa que une o prestigioso Politécnico de Milão, universidade pública nas áreas da engenharia, arquitetura e design, e sete associações italianas de profissionais, para fomentar o encontro entre os mundos acadêmico e empresarial, oferecendo cursos de pós-graduação latu sensu e pesquisa.

Em 2003, o POLI.design iniciou um programa de colaboração para difundir a visão multidisciplinar e sistêmica do design, com atenção especial para os países de nova industrialização, entre eles o Brasil, onde foi instalada uma agência em São Paulo, em 2005.

Em entrevista ao BlogDesing, Galisai, que é mestre em Design Estratégico, apontou o que mais o interessa no design brasileiro. A pedido do BD, o designer destacou os projetos mais interessantes que viu para reflexão e análise dos designers brasileiros nos Salões de Milão 2011 e nos eventos paralelos. “Selecionei quatro projetos, pensando no contexto brasileiro, na cultura e nos comportamentos de consumo e de vida típicos de uma sociedade estratificada, jovem, dinâmica. “

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Design brasileiro

Os aspectos que mais me interessam são ligados à representação das variantes culturais brasileiras. Me interesso quando a sinergia entre empresário e designer consegue produzir artefactos que olhem para o enorme patrimonio cultural presente no país. Me parece que todas as vezes que o design brasileiro olhou em direção das tradições regionais, reinterpretando o repertório artesanal e artístico, conseguiu inovar e produzir objetos de grande valor. Assim como quando, através de um produto ou serviço, consegue transmitir a sensualidade, a positividade e o entusiasmo do povo e das cidades brasileiras. Ao contrário, quando tenta imitar o que é produzido no exterior, ainda dentro de uma visão de país colonizado incapaz de tomar suas decisões, os resultados não são felizes.

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Destaques dos Salões de Milão 2011

Poltrona Husk de Patricia Urquiola para B&B Itália, cujo protótipo foi apresentado em abril de 2011 nos Salões de Milão

1 – A poltrona Husk foi pensada para ser especialmente confortável, um assento para transmitir a sensação de mergulhar entre as almofadas. Simplicidade e conforto são os conceitos-chave desse produto, criado pela ótima designer espanhola a partir das sobras de tecido, de “imbottitura” recuperadas para dar forma a uma série de almofadas costuradas entre elas e disponíveis em três diferentes tamanhos.

Os elementos que compõem a poltrona – uma forma de plástico moldada, as almofadas e outras partes metálicas – são montados para permitir a completa separação e agilizar o processo de reciclagem e relativa diminuição do impacto ambiental.

Esse conceito de reaproveitar o descarte é típico do design brasileiro, sempre eticamente preocupado (justificadamente!) em relação à sustentabilidade, reciclagem, respeito para natureza.

Porém é raro ver no Brasil produtos (industriais) acabados, bonitos, descartáveis e recicláveis. A simplicidade e elegância do projeto da Patricia Urquiola pode ser de inspiração para os jovens designers brasileiros que se confrontam com o tema do “eco-design”.

Produzir uma cadeira com um assento feito de tampas de garrafas não é necessariamente “sustentável”, muito pelo contrario. Como também fazer do aproveitamento de pedaços de madeira, de vidro, de pelúcia etc a principal  linguagem de projeto pode ser “artisticamente” interessante, mas pouco sustentável e certamente redundante.

2 – Para transformar os eventos Fuorisalone (o conjunto de eventos espalhados pela cidade e paralelos ao Salone del Mobile) em testemunho de empenho para a cidade e para a arte que dura no tempo, a empresa Paola Lenti (especializada em produzir tecidos e materiais para moveis e acessórios para casa) junto com outras empresas – Davide Groppi, Oikos, Enea Landscape – começou um percurso de reforma dos afrescos dos Chiostri dell’Uminataria em Milão.

Trata-se de um ex-convento franciscano do século XIV dividido em quatro claustros renascentistas com jardins escondidos e espaços autênticos, ricos de fascínio e história. Nesse lugar, após a reforma, Paola Lenti criou um percurso entre superfícies de águas, ambientes e atmosferas moduladas por sugestões de sons, cores, perfumes e objetos tipicamente italianos, com forte sabor mediterrâneo.

Um percurso harmonioso, delicado, simples e elegante, respeitoso do espaço do ex-convento, onde apresentar os novos tecidos e acabamentos para as cadeiras (Kiti e Mira), os sofás (Haven) e sofá e poltronas da última coleção Teatime para jardins e espaços externos.

Foi provavelmente do melhor evento do Fuorisalone, o mais bem-sucedido, pois demonstrou com clareza uma proposta elegante e simples de Paola Lenti, mas, mais ainda,  a sensibilidade o empreendedorismo de uma mulher italiana que investiu na reforma de um espaço público na cidade de Milão – sem Lei de incentivo ou ajudas fiscais, provavelmente com a opção de usar o ex-convento em outros eventos da marca.

Infelizmente esse tipo de atitude não é frequente na Itália, menos ainda no Brasil. Quando entrei no espaço da Paola Lenti e entendi o trabalho que foi feito, pensei no Mube, no MASP, no que sobra da casa da família Matarazzo na Avenida Paulista… Pensei em ver uma empresa brasileira (que atua dentro de uma das economias mais fortes do mundo) preocupar-se em reformar e ganhar visibilidade na valorização da Casa de Vidro da Lina Bo Bardi!

3 – Depois de uma poltrona, de um espaço reformado, é a vez de um bairro. O terceiro projeto escolhido é uma marca territorial, o bairro chamado Zona Ventura, rico em industrias e armazéns reaproveitados para criar escritórios, lofts, galerias de arte e espaços de residências. Na semana do design, a região se transforma num lugar experimental, meta dos estudantes e das principais escolas de design que se encontram para compartilhar projetos e experiências.

Nessa última edição, a internacionalidade foi marcante: 45 expositores, entre os quais os israelenses de Promisedesign, os ingleses Laikingland em colaboração com Tord Boontje e l’Atelier Ted Noten, a italiana Plusdesign, os poloneses de Unpolished, além de escritório de design alemães, holandeses, franceses.
 
No mesmo bairro foi possível rever a proposta de algumas das mais importantes escolas de design, entre as quais o Royal College of Art de Londres, a Academy of Arts, architecture and design di Praga, la Bezalel Academy di Jerusalém, a Academy Fine Arts de Maastricht e outra centros que formam os criativos de amanhã.

Uma das exposições mais interessantes foi a Garden at Home, que, organizada pelo jornal Il Corriere dela Sera, apresentava os projetos de 30 designers internacionais chamados para interpretar o tema da relação entre natureza e espaço urbano, propondo soluções “fai-da-te/faça você mesmo” para recriar um verdadeiro Eden urbano equipado, fácil e acessível! 

Esse tipo de intervenção – requalificação residencial do bairro, inserção de espaços culturais, áreas verdes, organização de eventos, mostras etc – se insere em um plano de requalificação urbanística, redefinição das dinâmicas e dos serviços (públicos e privados) ofertados para a cidadania.

Esse é um exemplo de como o design, entendido como abordagem sistêmica, transversal e estratégica, colabora junto com outras áreas disciplinares (arquitetura, antropologia, marketing) para redefinir a proposta de um bairro, sua imagem e identidade, exatamente como no caso de um produto industrial, como a poltrona Husk da Patricia Urquiola. O designer vira um storyteller, capaz de escrever uma história (sensemaking) e contá-la coerentemente através da conexão com de todos os elementos do contexto.

Cidades como Bilbao, Barcelona, Turim, Genova foram objeto de projetos complexos que procuraram redefinir ou valorizar a própria identidade. Em vista dos próximos eventos no Brasil (Copa 2014 e Olimpíadas) e considerando o consistente crescimento econômico brasileiro, Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Fortaleza e as outras capitais brasileiras tem diante de si a possibilidade de (re)qualificar a própria imagem, valorizar a identidade de bairros inteiros, potencializar e investir na proposta de serviços públicos para atrair investimentos privados e para oferecer melhores condições de vida para a cidadania. O barato será contar a historia certa e conduzir a direção do filme até seu final.

4 – No final, falamos de design do sacro. Como sinaliza Marco Sammicheli, jornalista da revista Abitare, numa matéria sobre o tema, além da arquitetura de culto e do merchandising religioso (ainda geralmente kitsch), é possível sinalizar alguns casos nos quais designers e artistas refletiram sobre o tema do sacro dentro de uma dimensão doméstica e no espaço do cotidiano.

Nesse contexto, na semana do design foi inaugurada no Museo Diocesano de Milão a mostra “Cruciale” do designer Giulio Iacchetti, onde foi apresentada uma reflexão sobre o símbolo cristão mais conhecido: a cruz.

A beleza gráfica e a simplicidade do signo inspiraram o designer Giulio Iacchetti, que trabalhou para obter produtos domésticos que aproveitassem da  linearidade e essencialidade desse símbolo. Resultado: um percurso expositivo intenso, feito de 20 cruzes produzidas através tecnologias de materiais diferentes como prata, ferro, aço, vidro insuflado e fibra de carbono.

Cada uma rica de múltiplos significados em diálogo e contraste entre si. Espiritualidade, sacro e religiosidade são valores humanos, desde sempre, mas adquirem uma intensidade especial nos países de cultura latina como a Itália e o Brasil.

No Brasil, essa espiritualidade ganhou uma dimensão profunda e sincrética, porque pegou forma uma civilidade neolatina, tardia e tropical, uma “nova-Roma” (Darcy Ribeiro) resultado da integração, livre e forçada, de todas as raças humanas: índia, européia, africana, oriental e árabe. Não existe nada de parecido no mundo. Esse é, ao meu ver, o principal diferencial da civilidade brasileira, sua miscigenação racial e cultural que passa pelo respeito multi-religioso e pelo compartilhamento de práticas e espaços de culto diferentes. Dentro desse cenário, quais símbolos, liturgias, objetos e comportamentos são possíveis? Tem muito espaço para o design do sacro.

Obrigado

Henrique Praxedes

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