O design na luta contra a pobreza


Por MICHAEL KIMMELMAN – The New York Times

Para a maioria das pessoas, a palavra “design” é sinônimo das coisas belas que uma sociedade rica faz para ela mesma, como iPads, joias caras ou automóveis clássicos.

 (HAAS&HAHN)

“Design With the Other 90 Percent: Cities” (design com os outros 90%: cidades), uma mostra inspirada —embora seu título seja infeliz—, trata de outro tipo de design. Ela foi organizada pelo Museu Nacional de Design Cooper-Hewitt, em Nova York, e agora está instalada no saguão de visitantes do prédio das Nações Unidas.

Os objetos mostrados aqui tendem a parecer toscos e às vezes embaraçosamente simples, suscitando reações do tipo “por que ninguém teve essa ideia antes?”. Sua beleza é de outra natureza: se deve ao fato de trazerem soluções inteligentes e econômicas a alguns dos problemas enfrentados por milhões das pessoas mais pobres do mundo. São criações que procuram trazer res- postas a crises que sempre pareceram refratárias —pandemias globais como a proliferação de favelas e doenças infecciosas.

Trata-se, em outras palavras, de uma mostra de design para refazer o mundo. E isso é emocionante, quer esteja acontecendo em Cupertino, Califórnia, ou em Uganda, onde centenas de pessoas são contaminadas com o HIV todos os dias. Nesse país, a novidade mais recente no tocante à telefonia celular é a criação e distribuição de um sistema de mensagens de texto que divulga informações sobre saúde.

“Text to Change” (Torpedos para a Transformação), como é chamado o projeto, requer a colaboração de dois especialistas holandeses em comunicações e tecnologia com operadoras locais de telefonia celular e organizações que prestam assistência
médica.

Em Kibera, uma área de Nairóbi, Quênia, que abriga uma das favelas de maior densidade demográfica da África, o desafio era outro. Ali, as fogueiras tradicionais feitas com madeira e carvão causavam doenças respiratórias em grande parcela da população. As ruas são cheias de lixo.

O design ajuda a salvar o mundo; uma favela por vez

Então um arquiteto de Nairóbi projetou um fogão comunitário que é movido pelo lixo recolhido pelos moradores, que em troca podem usar o aparelho.

Na Tailândia, um programa público chamado Melhoria da Comunidade Baan Mankong vem há oito anos melhorando as condições de vida em centenas das 5.500 favelas do país, além de envolver moradores, governo e organizações não governamentais em um esforço para projetar moradias mais seguras e limpas.

Às margens do canal Bang Bua, em Bangcoc, onde milhares de famílias vivem há anos em palafitas precárias ligadas por passarelas frágeis, arquitetos da Universidade Sripantum projetaram fileiras de casas geminadas e semigeminadas, seguindo linhas sugeridas pelos moradores.

Centenas de estruturas decrépitas foram demolidas e casas novas erguidas em seu lugar. As novas casas, feitas de madeira e portas recicladas, foram construídas em terra firme próxima das palafitas anteriores, para não dividir comunidades ou deslocar famílias.

A estratégia seguida em Bang Bua incluiu ainda empréstimos a juros baixos e arrendamentos por 30 anos (com possibilidade de renovação), fazendo com que os moradores tenham direitos legais sobre os imóveis em que vivem e tenham interesse em sua conservação.

Isso ajudou a pôr fim ao ciclo de despejos (usados para abrir espaço para shopping centers e vias expressas) que deixava os pobres impotentes e desesperançados. “As cidades são muito complexas, e o que fazem os melhores designers é dar forma a ideias que às vezes são muito simples”, disse a curadora da mostra, Cynthia E. Smith.

“O bom design requer não apenas lançar um olhar novo sobre os problemas, mas, sobretudo, ouvir as pessoas que vivem nessas comunidades. Estamos falando de 1 bilhão de pessoas que hoje vivem em comunidades informais.”

O bilhão de pessoas está projetado para dobrar até 2030 e triplicar até 2050, segundo o Programa de Assentamentos Humanos das Nações Unidas.

Isso significa que uma em cada três pessoas no planeta viverá em lugares como as favelas do Brasil, os “barrios” do Equador, os “shack settlements” sul-africanos, os “bidonvilles” tunisianos ou os “chapros” do Nepal. Cynthia Smith passou dois anos estudando o que designers vêm fazendo para melhorar as condições de vida nesses lugares.

Como foi feito em Bang Bua, uma lição pareceu muito óbvia: a necessidade de pedir que as pessoas que vivem na pobreza sugiram suas próprias soluções. Projetos de renovação urbana sempre funcionam melhor quando são feitos de baixo para cima.

Somsook Boonyabancha, diretor da Coalizão Asiática de Direitos Habitacionais, escreveu no catálogo da mostra: “Os pobres são criadores e implementadores dos sistemas mais amplos e abrangentes para solucionar problemas de pobreza, moradia e prestação de serviços básicos”.

Em Diadema, cidade industrial na periferia de São Paulo, 30% da população vivia em favelas. O governo pediu conselhos à população para definir prioridades para construções, que empregavam trabalhadores residentes nas comunidades.

Um programa fundiário deu aos moradores o direito de viverem por 90 anos em seus imóveis, para incentivar manutenção e investimentos. Assim, os moradores ajudaram a ampliar e pavimentar ruas e instalar sistemas de água e esgotos.

Hoje, segundo Smith, 3% dos moradores de Diadema ainda vivem em favelas, e o índice anual de homicídios caiu do pico de 140 por 100 mil habitantes, na década de 1990, para 14,3. Medellín, na Colômbia, foi no passado a capital mundial dos cartéis de drogas, homicídios e desespero.

Há dez anos, líderes políticos progressistas decidiram fazer investimentos mais pesados nas piores favelas, construindo um sistema de teleférico para ligar o centro da cidade com as áreas isoladas e cheias de criminalidade que cobriam os morros.

Em volta dos pilares do sistema de transporte foram construídos novos parques, bibliotecas, escolas públicas e passarelas de pedestres, de modo que as obras de
arquitetura pública mais belas e ambiciosas foram erguidas nos bairros mais pobres.

Medellín tornou-se uma cidade mudada. E em La Vega, uma das favelas nas encostas que cercam Caracas, na Venezuela, uma equipe de arquitetos, engenheiros e geólogos criou uma série de novas escadarias e praças, de modo que a subida dos morros, antes muito árdua, foi facilitada.

Em Pune, uma das muitas cidades indianas em franco crescimento, trabalhadores constantemente se deslocam com suas famílias de um assentamento informal para outro, seguindo as obras de construção.

A consequência disso é que com frequência os filhos não são matriculados na escola. Uma equipe de designers decidiu uma década atrás levar as escolas às crianças, por meio de ônibus equipados com salas de aula para 25 alunos que vão buscando os alunos, onde quer que morem.

Em Bangladesh, o arquiteto local Mohammed Rezwan projetou “barcos salva-vidas comunitários” que fazem as vezes de escolas, bibliotecas e ambulatórios de saúde flutuantes. Com o nível do mar em ascensão, a previsão é que até 2050 quase 20% da terra do país esteja submerso. O delta do GangesBrahmaputra, a área mais densamente povoada do mundo, será inundado.

Trabalhando com construtores de barcos da região, Rezwan adaptou a embarcação fluvial tradicional, feita de bambu e com fundo chato.

Ele equipou as embarcações com tetos à prova d’água e painéis solares, instalando computadores, internet com conexão rápida e lâmpadas solares portáteis feitas de lanternas de querosene recicladas.

Materiais tradicionais, técnicas de construção civil locais e fontes de energia renováveis renderam um paradigma de design contextual.

Por The New York Times e Jornal O Povo 

Obrigado

Henrique Praxedes

Anúncios

2 comentários sobre “O design na luta contra a pobreza

  1. Sensacional essa matéria. Outro exemplo é o Haiti que sofre de problemas sociais sérios a anos e que depois do terremoto que matou centenas de milhares de pessoas, ainda hoje mesmo com ajuda mundial continua em situação precária.

    Essa ajuda mundial tem sido bacana por “N” motivos, pesquisas e mais pesquisas foram feitas e dentro delas tem uma que acho bem bacana que esta sendo colocado em prática, é o uso da Nanotecnologia para purificação da água. Utilizando essa tecnologia foi criado uma espécie de Squeeze ou garrafa térmica, onde você faz um tipo de bombada e você pode consumir a águe em segundos. É o design sendo utilizado na maior de suas razões.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s